"Um cristão verdadeiro é uma pessoa estranha em todos os sentidos. Ele sente um amor supremo por alguém que ele nunca viu; conversa familiarmente todos os dias com alguém que não pode ver; espera ir para o céu pelos méritos de outro; esvazia-se para que possa estar cheio; admite estar errado para que possa ser declarado certo; desce para que possa ir para o alto; é mais forte quando ele é mais fraco; é mais rico quando é mais pobre; mais feliz quando se sente o pior. Ele morre para que possa viver; renuncia para que possa ter; doa para que possa manter; vê o invisível, ouve o inaudível e conhece o que excede todo o entendimento."
A. W. Tozer
Talvez o livro mais simples e profundo que eu já tenha lido! Alguns autores na ânsia de impressionar tornam suas narrativas cheias de conteúdo e de pouca sensibilidade. Outros, na ânsia de vender são superficiais e tolos. William P. Young, ao meu ver conseguiu ser profundo e sensível dentro de uma redação simples. Que inveja!! A princípio pensei se tratar de uma daquelas fábulas que quer transmitir uma mensagem do cristianismo, mas cheia de símbolos, e honestamente acho difícil outra pessoa acertar nesta linha, a não ser C.S. Lewis, é claro. Enfim, comecei a ler o livro por indicação do meu filho primogênito e confesso que fiquei esperando o momento em que o autor ia escorregar no seu objetivo. Me enganei!! Eu sempre gostei das coisas despretensiosas e que consegue surpreender. Para mim este é o ingrediente principal do livro. E na verdade, segundo o próprio autor, não tinha a menor intenção de escrever um livro! Se alguém me falasse que ia escrever uma história cujo personagem ia passar um final de semana numa cabana na companhia de Deus, Jesus e o Espírito Santo, e ali numa rotina quase doméstica conversariam e tratariam das questões mais complicadas do ser humano , eu simplesmente riria de tal projeto!! Qual não foi o meu espanto quando me vi em várias situações, e mais, desejei que a convidada da cabana fosse eu! O autor não se esquivou de assuntos delicados como relacionamentos familiares, amor culpa, ódio, perdão, perdas e dores profundas. Será que resta mais alguma coisa além disso?? Acho que não. Dentro destes temas está toda nossa história, e a partir deles construímos como nos relacionaremos com o Papai. O livro me fez também refletir e questionar que espécie de relacionamento estou construindo com Deus. Relacional? Íntimo? Cerimonioso, como me relacionaria com um chefe de Estado? Místico? Desrespeitoso? Há inúmeras maneiras de nos relacionarmos com Deus, e certamente nenhuma delas chega perto do que Deus realmente oferece para nós, e não somos capazes de entender. Não sei quantas pessoas visitam este blog, porque na verdade não tenho nenhuma pretensão de somar visitantes, mas se por acaso você parou alguns minutos e se deu o trabalho de ler este texto, espero que tenha muita curiosidade em ler A Cabana. Pode ser que não concorde com a minha visão do livro, não tem o menor problema, nem quero que concorde, mas certamente terá gastado algumas horas com uma leitura muito interessante!
Quem é essa tal ansiedade, que tem devastado uma multidão?? Quem é ela, que chega sorrateira e entra, sem nunca ser convidada, e espalha-se pela nossa vida?
Quem é esta ladra cruel, que quando nos damos conta roubou nossa paz, nosso sono tranquilo e até os nosso batimentos cardíacos ritmados?
Uma coisa devemos admitir, ela realmente é livre de qualquer preconceito.. invade a vida e mente dos ricos, dos pobres, dos mais ou menos. Do branco, do negro e do amarelo. Invade mansões e casebres com as mesma tranquilidade e esparrama-se muito a vontade...
Não é discriminativa, tanto pode ser cultos e letrados, como analfabetos. Tem um único objetivo: assolar a nossa alma.
Estou disposta a conhecer esta inimiga sorrateira.
--- Muito prazer! Ou melhor, não tenho nenhum prazer, mas quero saber quem é você? De onde você vem?
Percebo que a Ansiedade ficou inquieta, afinal pega assim de surpresa! Mas, resolveu falar. O difícil é aturar a sua voz distorcida e cheia de ecos!
--- Sempre existi, nasci com o a humanidade, é certo que alguns tem dito que sou o “mal do século” isto até me envaidece, dizem que sou a emoção oficial do século. Quanta honra!! Sou considerada como a base de todas as neuroses, e não é por nada, mas todos já experimentaram minha presença em maior ou menor quantidade. Algumas vezes sou aguda apareço como um raio, muito intensa, mas duro pouco, acabo sendo vencida. Outras vezes me torno crônica, ou seja companheira constante em qualquer situação, acabo quase sempre desestruturando o corpo, o físico a alma. É natural surgirem complicações físicas e assim me torno íntima da enxaqueca, da gastrite, da hipertensão e uma série de outros infortúnios. Não sou sempre vilã, pode acreditar! Em alguns momentos sou normal. Afinal encarar um desafio novo, uma mudança radical, uma decisão difícil, não é fácil e nestas horas apareço normalmente, mas logo saio de cena. No entanto, algumas vezes sou rotulada de neurótica. É que me fixo com tanta intensidade e por motivos tão simples e pequenos que me torno doentia e até eu me assusto com as garras que posso ter e com a maneira que posso prender uma pessoa.
--- Desculpe interromper, senhora sorrateira, mas tenho uma pergunta. Você falou como aparece, como pode tomar conta de uma pessoa, não sei se entendi mal, mas parece que até com certo orgulho você fala de suas atividades. Gostaria de saber porque algumas pessoas são mais vulneráveis à sua presença? Tenho esta curiosidade.
--- Costumo não me mostrar com tanta facilidade, mas vamos lá, posso responder esta pergunta. Tenho uma famíliaunida, e normalmente trabalhamos em comum acordo. Minha mãe, é a Senhora Auto Estima Baixa, e meu pai é o Sr Conflito. Tenho uma irmã, a Insegurança, e o que poucos sabem tenho um irmão gêmeo, o Medo. Não apresento minha família com facilidade, mas tenho orgulho dela. Somos unidos e costumamos trabalhar sempre juntos. Minha mãe acaba de certa maneira facilitando a minha entrada. A Auto Estima Baixa é realmente muito ardilosa e minha irmã Insegurança, quase sempre está junto. Pronto! Posso entrar com facilidade. As pessoas normalmente não reagem bem a presença do meu pai, o Sr Conflito, ficam baratinadas e toda a minha família acaba entranto em cena. E é claro meu irmão gêmeo, o Medo se mistura muito comigo, algumas pessoas nem sabem diferenciar quem é um ou quem é outro, ou ainda não conseguem muitas vezes saber se o Medo veio porque estão ansiosas, ou se a Ansiedade veio porque sentem Medo. É uma grande confusão. Mas chega! Já falei muto de mim, isto não foi uma apresentação meramente, me expus demais. Gosto mesmo é de ser sorrateira... e assim saio sorrateiramente....
--- Estou realmente surpresa, nada como enfrentar nossos inimigos assim, conhecendo-os. Qual não foi minha surpresa quando descobri que há uma família inteira conspirando contra todos nós!!Aí está, a misteriosa Ansiedade, mostrou sua cara! Pode ser sorrateira, ter uma família unida, se vangloriar de suas estratégias. Pode orgulhar-se de suas vítimas, da criatividade com que age em nossas vidas,mas, lamento informar, você não tem a última palavra. Vocêé apenas uma vírgula no nosso texto. Ouvi paciente o seu discurso, já senti sua presença algumas vezes e tenho convivido com muitas pessoas tentando driblá-la. Mas agora é minha vez! Quero falar também da minha família, menor que a sua, mas certamente infinitamente mais eficiente!
Tenho um Pai, um Irmão mais velho e um Eterno Companheiro. Meu Pai é Criador de tudo, tem todo o domínio sobre a natureza e acredite é Soberano sobre tudo e todos. Todas as nações do mundo são como um nada diante do meu Pai. Ele criou todas as coisas, e olha só, ele chamas as estrelas pelo nome! Não existe no mundo outro igual ao meu Pai.
Meu Irmão mais velho tem poder sobre a natureza, é capaz de aliviar as cargas pesadas de todos nós, um toque de suas mãos é suficiente para curar as nossas dores, sarar as nossas feridas! Tem um amor incondicional por nós e por causa deste amor foi capaz de se entregar a uma morte absurda para garantira salvação de todos os que acreditam Nele e no Pai. No entanto, a morte não O derrotou, Ressuscitou e hoje está com o Pai. Certamente está pensando que fiquei só, desamparada? De maneira nenhuma! Encarregou o Consolador para ser meu fiel companheiro, caminhar comigo todos os dias. Este Eterno Companheiro é como um vento que sopra. Não O vejo, mas sei que está comigo!
Realmente é uma família poderosa! Meu Pai desfaz o seu num segundo e o reduz a nada! Meu Irmão mais velho lança fora o Medo, seu irmão.
Sinto muito senhora sorrateira, meu Pai mandou que todas as vezes que você chegasse era para jogá-la sobre Ele. Não posso desobedecer meu Pai!
Lancemos sobre Deus toda a nossa ansiedade, pois ele tem cuidado de nós! 1 Pedro 5.7
Quem inventou esta história de irmãos, foi mesmo um gênio. Sim, eu sei, muitos não concordam, afinal desde Caim e Abel muitos irmãos ainda continuam se matando, e muitas vezes literalmente... Que me perdoem os filhos únicos, mas ter irmãos é mesmo fundamental!
Que mistério é este que nos faz igual e diferentes ao mesmo tempo??
Que delícia de sentimento é este que o tempo e a distância não consegue sufocar??
Acho que vou usar e abusar da prerrogativa de irmã mais velha e vou fotografar vocês com lentes especiais...
No primeiro clik um homem compenetrado e sério em tudo o que faz. Consegue com facilidade colocar em equilíbrio as turbulências que muitas vezes nos assaltam...
Íntegro, dono de um raciocínio lógico, perspicaz e rápido. É uma daquelas pessoas que vale a pena sempre ouvir sua opinião, mesmo que você não concorde!
É sempre muito bom quando ele está por perto.
O mais silencioso e sério de todos. É o que revela a segunda foto. Mas, não se engane observa tudo atentamente e nenhum detalhe escapa do seu olhar rápido e discreto. Porém, consegue ter um senso de humor que quase não vejo em ninguém. Não conheço um homem tão bom quanto ele. Incapaz de ferir quem quer que seja, prefere se prejudicar a prejudicar alguém.
A sensação que tenho é que se eu precisar de qualquer coisa em qualquer momento, posso contar com ele.
Os primeiros que me desculpem... mas o terceiro é muito especial pra mim, afinal muitas vezes me confundi no meio do caminho: sou irmã ou mãe?? Até hoje não sei muito bem a diferença... O mais parecido com meu pai, dos três. Também o mais carinhoso, o mais cuidadoso. Inteligente, e apesar de organizado e meticuloso , sua sensibilidade não deixa que se torne num pragmático. Admiro o seu altruísmo, a sua generosidade e principalmente a forma como ele varoliza o s laços de família. E olha só, acabo te ter uma notícia maravilhosa, ele vai experimentar a maravilhosa aventura de ser pai, o único de nós que ainda não viveu esta experiência.
Com ele tenho a sensação que posso confiar todos os segredos.
Depois de um desfile de três homens sob a minha lente vem a última de todos, aquela que sorri mais que todos, não só com os lábios, mas também com os olhos, grandes e misteriosamente escuros... Sei que vou me arrepender de admitir isto, mas a sensação que tenho é que nunca consigo falar não para ela. De uma maneira quase manhosa ela sempre consegue nos envolver. É daquelas pessoas que a raiva passa quase instantaneamente. Que inveja!! Como se não bastasse ser a caçula e ter méritos especiais, ainda tem o privilégio de colocar na família as gêmeas mais fofas que já vimos.
Só agora percebo que estou com lentes digitais, que bom a minha foto não tem negativo!!
"Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer;" Camões
Me dei conta hoje que os anos passaram rapidamente para nós. Parece que foi ontem que iniciamos a nossa vida em comum, não havia rugas e nenhum fio de cabelo branco, mas muitos sonhos e ideais. Hoje estava olhando pra você... continua muito bonito, a mesma beleza que vi há vinte e quatro anos atrás. Uma beleza rara... daquelas que não vemos com muita frequência. A barba ligeiramente branca me faz pensar nos anos que partilhamos e quase sem querer começo um verdadeiro balanço das nossas vidas. Percebo que houve muitos ganhos e pouquíssimas perdas. Na verdade, pensando bem o que perdemos não valia a pena ter. Deus foi muito generoso comigo, eu tenho que dar a mão à palmatória, eu não merecia tanto assim. Sou uma pessoa tão comum, cheia de defeitos, exageradamente exigente com as pessoas. Uma facilidade incrível para deletar todos os intrusos na minha vida, uma personalidade introspectiva e muitas vezes impaciente com as mesmices da vida... e ainda assim, Deus preparou pra mim o que Ele tinha de melhor _ o melhor homem, os melhores filhos, a melhor escolha. Um dia vou perguntar pra Deus: Porque tanta generosidade comigo?? Certamente vou ouvir: Tive misericórdia de você! Especialmente nestes últimos dias em que vivemos situações tão inesperadas pra nós dois ... vi novamente o homem com quem me casei, e mais uma vez gostei muito, mas muito mesmo do que vi. Às vezes precisamos saber o que não queremos, para valorizar o que temos. E é exatamente isso que acontece comigo. Tenho horror de pensar que poderia ter um homem fraco ao me lado. Estremeço só de imaginar que poderia dividir a minha vida com alguém que não é leal ou verdadeiro. Sinto um grande alívio quando vejo que você não é igual a tantos que se escondem como ratazanas assustadas e nunca enfrentam as suas próprias misérias! Mas tenho um baita orgulho de saber que você pode olhar nos olhos de quem quer que seja, que é leal, incapaz de trair a si mesmo e aos seus valores. Nunca se vendeu nem se deixou seduzir por futilidades, nunca se escondeu... Tenho orgulho de sua capacidade de lidar com o pior das pessoas, isto eu até mesmo invejo... Admiro a sua integridade, a sua fé, a sua paixão pelo que faz. Deus realmente foi muito generoso comigo.
Eu te amo, e sempre que precisar, ou não, vou rir ou chorar com você.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Contramão
Estou certa que na via em que todos, ou quase todos andam, é melhor voltar. Seguir o fluxo da multidão é a pior coisa que podemos fazer. Andar na contramão, pode ter certeza, é a melhor opção! É infinitamente melhor ser rejeitado, do que rejeitar alguém. Enquanto muitos querem ser perdoados, prefiro perdoar... Não quero causar dano, prefiro que causem em mim! Andar por onde todos, ou quase todos andam significa ressaltar os heróis, dignificar os espertos, e aplaudir os que ganham. Definitivamente prefiro a contramão. Os mártires são mais interessantes que os heróis. Dignidade tem quem pode olhar nos olhos dos outros sem desviar o olhar. E os que perdem? Ah! Estes são os verdadeiros ricos! Estou plenamente convicta que é melhor estar sobre o tapete puxado, do que ser a mão que covardemente puxa o tapete de alguém! Eu sei de Alguém que sempre andou na contramão do mundo. Conheceu de perto a rejeição sem que jamais rejeitasse quem quer que seja. Foi pisado, mas se recusou a pisar na cana quebrada. Poderia ter traído Judas, no entanto suportou a traição. Muitos já tentaram andar na contramão, mas foram pisados pela multidão... realmente não é fácil, não é uma questão de força, nem de inteligência, muito menos de estratégias, mas é uma questão de determinação... de uma certa ousadia... e principalmente de escolha. Eu me recuso a andar na via em que todos, ou quase todos andam, prefiro a contramão.
Neste final de semana assisti o filme “Ponte para Terabítia. Alguns filmes tem a capacidade de nos fazer pensar sobre algumas coisas. Para mim, quase sempre os filmes despretensiosos tem este efeito, os chamados “Cult”, na maioria das vezes me fazem apenas bocejar. Ponte pra Terabítia caminha entre a realidade e a fantasia com muita sutileza. Baseado no livro homônimo de Katherine Paterson, que escreveu o livro como forma de consolar seu filho mais novo, devido a morte trágica de uma grande amiga.. Terabítia é inspirado em Terabinthia, uma ilha do mundo fictício de Nárnia, que é mencionada nos livros “O Príncipe Cáspian” e “A Viagem do Pelegrino da Alvorada”, de C.S. Lewis. É um filme sensível que mostra a linha sutil que separa a realidade da fantasia De maneira quase imperceptivel somos transportados à nossa época de infância e adolescência, no meu caso, há muitos anos atrás... Jesse e Leslie criam um mundo de fantasia e desafios como forma de encarar melhor a realidade de ambos, principalmente pela exclusão que sofrem na escola. Numa época da vida que lidamos com uma turbulência de sentimentos e que muitas vezes nos sentimos estranhos e diferentes no nosso mundo, era quase natural construir pontes para mundos imaginários. Quem não teve vontade um dia de atravessar para Terabítia? A sutileza do filme, no entanto, é a volta para a realidade, não ficam o tempo todo em Terabítia, mas voltam para as suas famílias, escola, obrigações, e a medida que entram na fantasia também lidam melhor com a realidade. Não penso que tenhamos que viver entre a realidade e a fantasia, mas penso que temos que desenvolver uma capacidade especial de ter a mente aberta para ver além das circunstâncias que nos rodeiam. Jesse descobriu que tinha esta capacidade. Acho que ainda hoje tenho vontade às vezes de atravessar para Terabítia, só que agora não penso mais em príncipes ou princesas, em magias ou conquistas, mas em valores cultivados, em poder acreditar realmente nas pessoas, na igualdade dos povos, no respeito às diferenças. Penso num mundo onde as pessoas sejam realmente confiáveis. Na minha Terabítia hoje, eu ando duas milhas quando sou obrigada a andar uma, e ninguém exalta as sua próprias ações, com o objetivo de serem vistos por todos. Ninguém julga ou mede ninguém, o fraco é que é forte. E as casas do minha Terabítia são todas construídas na Rocha.
Depois de ler como o Dr Paul Brand descreve o olfato e como chama o nariz de “um órgão de nostalgia”, no livro “À Imagem e Semelhança de Deus”, fiquei pensando sobre o poder do olfato e a capacidade que tem de nos transportar muitas vezes para o passado. O que seria o cheiro da minha infância? Quase imediatamente me vi correndo pela rua empoeirada, num dia de verão em brincadeiras tão remotas que nossos filhos nunca conheceram, para de repente ser assaltada por pingos grossos e teimosos de chuva de verão, e o cheiro indescritível de terra molhada. A corrida desenfreada pra dentro de casa, ouvindo o barulho pesado já nas telhas, e através da janela olhar como a terra seca ia absorvendo a água. Eu sempre respirava fundo pra sentir o cheiro da terra molhada. Invariavelmente minha mãe sempre dizia: “este cheiro faz mal, você vai ficar gripada...” Ignorava o aviso e sem que ela percebesse inspirava mais ainda e olha só, nunca fiquei gripada por isso. Não gosto de dizer isto, mas as mães nem sempre tem razão... Ainda hoje quando consigo sentir este cheiro, me transporto para dias remotos e despretensiosos do passado em que o tempo parecia estar parado. Lembro do cheiro estonteante do pão caseiro que minha mãe fazia. Mal saía do forno e estávamos todos - na época éramos três filhos, esperando o momento que aquele cheiro pudesse fazer parte do nosso paladar. Sentávamos à mesa sob os protestos de minha mãe, que nunca desistia de pedir: “espere esfriar o pão!” Prá que?? Se o melhor era cortarmos grossas fatias e besuntarmos com toneladas de margarina que derretia imediatamente, e quase sem conseguir segurar o pão, comíamos a melhor das iguarias. Num momento comíamos um pão inteiro, daqueles bem grandes e gorduchos. O cheiro tinha nos seduzido! Lembro de domingos ensolarados, ou não, que acordávamos com o cheiro adocicado do caramelo. Era dia de sobremesa e quase sempre era um pudim, ou de leite, ou de claras, assados primitivamente numa lata redonda bem lavada dentro de uma panela de pressão. Acho que ninguém fazia assim, era só a minha mãe!! O cheiro do caramelo de cor escura me faz até hoje ter vontade de abocanhar as fatias generosas de pudim que comíamos depois do almoço. No final da tarde já estávamos a espera do próximo domingo... Quantas lembranças podemos ter!! Realmente Paul Brand tem razão em afirmar que o nariz é um órgão de nostalgia... Quando pisei pela primeira vez numa praia , uns quarenta anos atrás não consigo me lembrar da sensação da areia nos meus pés, mas me lembro do cheiro do mar, inconfundível. E ainda hoje quando chego numa praia preciso respirar demoradamente e sentir o mesma emoção de olhar o mar pela primeira vez. Lembro da primeira vez que me deixei abraçar e do cheiro que senti da pele do meu namorado. Quase vinte cinco anos depois, quando me enrosco no pescoço, agora do meu marido ainda sinto o mesmo cheiro da pele daquele dia. Como é bom!! Não é só o passado... Hoje o cheiro de chocolate lembra meu filho mais velho, e de todas as vezes que fiquei mexendo uma panela inundando a casa toda com o cheiro de brigadeiro. Bolinho de chuva fritando?? É o meu filho mais novo, cheio de expectativa esperando a travessa cheia e bem açucarados de preferência! Cheiro de pipoca? É sinal de dia nublado e um filme nos esperando. Tenho que parar de escrever. Sinto um cheiro estonteante de café no ar. Meu filho mais novo está fazendo um delicioso café. É o momento do dia que paramos, e juntos tomamos um cafezinho. Tenho certeza que no futuro todas as vezes que sentir este cheiro vou lembrar destes momentos especialmente saborosos...